O MITO DO AGREGADO

Algumas vezes vistos com desconfiança pelas famílias empresárias, os agregados são peças importantes em sua formação e, muitas vezes, fundamentais para a continuidade

Sara Hughes sabe o que é ser agregada a uma família empresária. Casada com um dos membros da segunda geração da família Trecenti, essa norte-americana foi membro do Conselho de Administração do Grupo Lwart e também foi uma das responsáveis pelo desenvolvimento de práticas que estabelecem como os agregados devem ser (bem) tratados pelo grupo.

Ela lembra que três dos agregados – ela incluída – já trabalharam na empresa. “Hoje somos dois no Conselho de Administração, mas não foi fácil. Quando entrei na família, assumi o papel de fazer essas perguntas e mostrar que isto era necessário”, diz.

Lidar com os agregados é, na verdade, muito essencial e inevitável: os membros da família casarão e seus cônjuges serão os responsáveis pela criação dos herdeiros das próximas gerações. Para Sara, eles representam oxigênio novo, pensamentos e questionamentos diferentes para a família.

“Estamos nos organizando cada vez mais para receber os agregados”, explica ela. No caso da Lwart, isso se faz mostrando a história da família e da empresa e deixando claras as responsabilidades e obrigações para as quais eles terão que se preparar. Sara destaca que, à medida que a família organiza sua história – com visão, missão e valores – fica muito mais fácil mostrar isso para os outros.

E não se trata apenas de contar a história, mas de desenvolver práticas de governança que incluam os novos membros. “Há regras de acesso, de uso de bens da família e da empresa e todas devem ser passadas ao agregado”, lembra. Mas Sara ressalta que isso deve ser feito com calma, deixando claras as razões para a existência da governança.

Todo esse cuidado se explica. Ao entrar para uma família empresária, o agregado deverá abrir mão de algumas individualidades pelo bem da coletividade e, para isso, ele precisa entender as razões. “O que acontece muitas vezes é que a família começa a despejar regras sobre o agregado e ele não entende o porquê de tudo aquilo. Uma pessoa que não tenha o legado da família, por exemplo, não vai entender a questão dos dividendos”, diz.

Por tudo isso, a reação do agregado vai depender do quanto a família entende seu legado e seus benefícios. “Se ela própria tiver dificuldade de entender, fica difícil. Por isso os valores devem ser passados de geração em geração. Se eles forem fortes, será mais fácil receber os agregados”, afirma Sara.

Organização

Sara explica que, no Grupo Lwart, os agregados começam a participar do negócio quando são casados. Isso permite dar informações homogêneas a todos, evitando expectativas distintas. Para isso há o Conselho de Família, que conta com vários grupos de trabalho (comitês), dos quais os agregados podem participar. Esses grupos definem os temas que serão debatidos pela família.

Além disso, a Lwart tem três mini assembleias de família de um dia, realizadas anualmente justamente para falar da empresa e seus resultados. Há, ainda, uma grande assembleia anual de família, realizada por três ou quatro dias, que tem o objetivo de integrar a família, além dos treinamentos específicos: uns para os membros que tem mais de 40 anos e outros para os que possuem menos. Também é realizada uma reunião anual somente com os agregados. “Temos trabalhado muito, investindo em treinamentos que vão desde como lidar com dinheiro, diferenças sociais, até as dificuldades do mundo moderno”, conclui.

Exemplo histórico

Um dos melhores exemplos da contribuição que os agregados podem dar para o sucesso de uma empresa é o da Moët & Chandon. A companhia está sediada na cidade de Épernay, na França, e foi criada em 1743, quando Claude Moët começou a produzir vinhos na região de Champagne.

Moët expandiu rapidamente os negócios e, no final do século XVIII, já estava exportando a bebida para toda a Europa e Estados Unidos. Seu neto, Jean-Rémy Moët, levou a "Casa" para uma clientela de elite como Thomas Jefferson e Napoleão Bonaparte. O nome Chandon foi adicionado à companhia em 1832, quando Jean-Rémy Moët deu a metade da companhia a seu genro Pierre-Gabriel Chandon de Briailles e a outra parte a seu filho, Victor Moët.

Sob a nova marca, dez anos depois, a companhia lançou sua primeira safra de champagne e, em 1921, produziu seu primeiro cuvée de prestígio sob a marca Don Pérignon. Não por acaso, hoje a Moët & Chandon é uma das marcas de luxo mais conhecidas do mundo, com uma produção anual de 26 milhões de garrafas de champanhe.

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