O IMPACTO COMPORTAMENTAL DO HOMO ECONOMICUS

À medida que as gerações vão se sucedendo, as posteriores tendem a consumir mais riqueza que as anteriores, em detrimento dos investimentos e da produtividade

Prof.a Dr.a Cristina de Mello

é consultora da höft - bernhoeft & teixeira e professora de Economia da PUC-SP e da ESPM

“Os biólogos estudam o comportamento e a organização de diferentes espécies animais. A ciência econômica, por sua vez, analisa o comportamento do Homo Economicus, conceito segundo o qual o homem é um ser racional, perfeitamente informado e centrado em si próprio. E, mais do que isso, um ser que deseja riqueza, evita trabalho desnecessário e tem a capacidade de tomar suas próprias decisões, de forma a atingir seus objetivos.

Ao contrário da Desulforudis Audaxviator, bactéria cuja espécie é a única capaz de viver em completo isolamento em seu ecossistema, esse ser idealizado, utilizado em muitas teorias econômicas, é altamente dependente da exploração de seu ecossistema e, ainda, de outras espécies. Com um cérebro evoluído e apto a examinar, cultivar, processar, criar, distribuir e organizar novas formas de produção, o Homo Economicus também elege cotidianamente o que – e o quanto – consome.

Acontece que historicamente a espécime “brasileira” não tem o hábito de poupar, tão pouco controlar despesas e gerenciar suas finanças pessoais. Parte da culpa é da época da inflação, na qual guardar dinheiro de um mês para o outro era o mesmo que jogar parte dele no lixo. Se engana quem pensa, no entanto, que o impacto do chamado comportamento microeconômico se restringe ao próprio indivíduo e sua família. No que tange às empresas familiares, por exemplo, a realidade mostra que, à medida que as gerações vão se sucedendo, as posteriores tendem a consumir mais riqueza que as anteriores – incluindo imóveis, automóveis, viagens e afins –, em detrimento dos investimentos e da produtividade. Com isso, não é difícil concluir que a soma dessas escolhas acaba refletindo no comportamento de uma região, uma cidade, um estado ou, em última instância, no desenvolvimento de todo um país.

Outro ponto importante relacionado à “vida moderna” se refere ao fato de o consumo não depender necessariamente da capacidade econômico-financeira de cada pessoa, seja física, seja jurídica. Isso graças ao nosso sistema bancário que, ao ofertar crédito abundante, trata de emprestar os recursos dos que optaram por guardar parte do que ganham (que são recompensados por rendimentos periódicos) para os que, ao contrário, preferem gastar mais do que seu poder aquisitivo  permite (e pagam por isso, em forma de juros). Colocar-se em um lado ou outro do balcão é, de novo, uma opção de cada um de nós.”

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