DIALOGAR NÃO É OPÇÃO, É OBRIGAÇÃO

A importância do diálogo é indiscutível em todas as áreas de relacionamento, mas quando se trata de famílias empresárias, ele é fundamental para a sua continuidade

por Fábio Barros

Falar sobre a importância do diálogo nas relações familiares parece óbvio. Por definição, estamos falando da interação entre dois ou mais indivíduos em busca de um acordo. Ou seja, parece claro que, na sua origem, o diálogo trata de entendimento.


Quando se trata de relações familiares, o diálogo é algo que precisa ser constantemente construído. De acordo com a psicóloga e especialista em terapia de família, Marlene Marra, a família precisa ser compreendida como um grupo social em contínuo processo de organização, desorganização e reorganização. Neste processo, para que seus membros possam se entender, as conversações e as narrativas as ajudam a se reorganizar e estabelecer laços. E isso acontece por meio do diálogo.


“No centro do diálogo e das conversações entre familiares está o processo humano de significações”, afirma. Na prática, é preciso entender o real significado do que as pessoas dizem. “Muitas vezes o que se diz e o que se escreve não traduz exatamente o que a pessoa quer, de fato, transmitir. Do mesmo modo, apenas ouvir não significa que se vai entender o que o outro está dizendo”, explica Marlene.


Ou seja, o diálogo só funciona se as pessoas se comunicam com clareza, buscando serem entendidos e, como ouvintes, deixam claro se estão realmente compreendendo a mensagem que estão recebendo. Para que isso ocorra, Marlene defende que cada um deve conhecer exatamente qual é sua parte, e sua responsabilidade, na história da família. “Se não temos a real compreensão das coisas, tendemos a responsabilizar os outros por aquilo que vivemos, de bom ou de ruim. Numa relação familiar, isso significa que um dos membros pode ser responsabilizado pelos outros por uma determinada dificuldade”, diz.


Por isso o diálogo representa um exercício de responsabilidade, que envolve todos os que estiverem na interação. Para Marlene, as relações são construídas pela família como um todo e o diálogo possibilita que seus membros resolvam suas questões, buscando novas atitudes e oportunidades de relacionamento.


Ela afirma que o diálogo deve ser exercitado em todas as situações como a melhor forma de evitar conflitos. Se o membro de uma família não fala sobre o que vivencia, ele dá aos outros a liberdade de interpretá-lo como quiserem. Do mesmo modo, se ele não compreende o que os outros dizem, vai criar compreensões a partir de suas convicções sempre que este vazio não for esclarecido. É neste momento que se estabelece o conflito, que pode ser levado por gerações. “É preciso que a pessoa diga o que está vivendo, para que o outro possa fazer essa compreensão. Conversar e narrar suas histórias uns aos outros, dentro ou fora do contexto familiar, permite o fortalecimento das relações e a reconstrução de sentidos”, defende.

famílias empresárias

Para Renata Bernhoeft, sócia da höft - transição de gerações, quando estas relações são transpostas para a família empresária, a importância do diálogo ganha ainda mais força. “Costumamos dizer que as famílias empresárias estão condenadas ao diálogo”, diz, lembrando que este é a principal ferramenta de trabalho em um processo de sucessão e continuidade.


Um bom exemplo dessa importância se dá quando diferentes gerações convivem dentro da empresa. Há padrões de comportamento que passam de uma geração à outra e barreiras criadas por conta disso só serão quebradas no momento em que a família conhecer sua história e decidir como vai tomar posição sobre determinadas questões. “Quando isso acontece, as novas gerações conseguem compreender o significado de seu legado e o que ele representa”, explica Renata.

Para Marlene, este é o processo de ressignificação das relações. “À medida que a família vai compreendendo o significado de sua história, o diálogo vai se restabelecendo, ajudando-os a se compreender cada vez mais”, ressalta. A psicóloga acredita que a maioria das famílias têm competências e recursos próprios para elaborar compreensões sobre sua convivência.

“Em alguns casos, no entanto, não é possível sair por conta própria do emaranhado criado ao longo de gerações”, diz, lembrando que nesse momento é necessária a ajuda de um profissional, que vai ajudá-los e encontrar respostas mais rapidamente. O certo é que o diálogo deve estar presente a todo momento.


Por tudo isso o diálogo é importante e serve para a compreensão de tudo aquilo que se está vivendo, impedindo a perpetuação de modelos estáticos de convivência. “Para as famílias empresárias, o diálogo é o único caminho. Essa é uma de nossas premissas”, conclui Renata.

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