CONFLITOS: A MELHOR SAÍDA É O DIÁLOGO

Choque de gerações é comum, mas em empresas familiares ele tende a ser amplificado. Nestas horas, não há nada que substitua o diálogo.


Poucas coisas são mais antigas que o chamado choque de gerações. O tempo passa, as gerações mudam, mas os conflitos entre pais e filhos permanecem. Como um ritual que passa de geração a geração, os conflitos marcam posições – de um lado e de outro – e, em última instância, dão forma ao relacionamento que será mantido dali para frente.


Vale para qualquer família, e vale também para as empresas familiares. Quando se trata delas, estes conflitos se amplificam, ganhando conotações e consequências que vão além do ambiente familiar. Afetam pessoas, a empresa, seus funcionários e seus resultados. “Os conflitos são inerentes às relações humanas e podem ser positivos, porque é o momento de ouvir, de entender o outro”, explica a terapeuta de família Nair Teresinha Gonçalves.


A terapeuta de família Tai Castilho explica que o conflito é parte do curso da vida. “Ser pai é uma coisa e ser filho é outra”, afirma. Ela lembra que cada um tem sua função e que essas diferenças trazem conflitos. “São pontos de vista diferentes. Muitas vezes são pais que ainda querem fazer diferente do que seus pais fizeram”, diz.


Levada para o ambiente empresarial, a questão ganha complexidade. A terapeuta de família Ana Maria Escobar explica que empresas familiares são complexas, pois envolvem simultaneamente um desafio econômico e um afetivo, englobando um negócio e uma família com toda sua complexidade relacional. “Se há algum conflito de geração dentro de uma empresa familiar, temos que entender que na base desta dificuldade estão as pessoas e seus sentimentos de injustiça, rivalidade e sensação não equitativa do ponto de vista do amor e do reconhecimento”, diz Ana Maria.


Soluções


Os problemas são muitos, mas a solução parece ser uma só: diálogo. Nair Teresinha lembra que as diferenças são ricas, desde que respeitadas. “As pessoas podem conversar e dali partir para somar e multiplicar. Através do diálogo somamos, construímos pontes. Com certeza, cada um tem aspectos importantes para serem trazidos”, diz.


Tai Castilho reforça a tese, lembrando que dependendo do tipo de família, existe pouco diálogo. “Quando as conversas são possíveis, marcam-se as diferenças da experiência de cada um: o pai consegue valorizar a experiência do filho como inovadora, e este consegue ver a experiência do pai como consistente. Com o diálogo, os conflitos podem ser enfrentados de forma mais amorosa e menos competitiva, legitimando os dois pontos de vista”, afirma.


A questão é: de onde deve partir a iniciativa. Para Nair Teresinha, vai iniciar o diálogo aquele que tiver uma estrutura mais flexível. “Espera-se que seja a pessoa mais velha, mas não necessariamente. O diálogo é uma construção que se faz desde cedo, nos rituais em que a família se reúne. Isso deve ser feito desde criança. O importante é que essa comunicação se faça desde sempre”, diz Nair Teresinha.


De todo modo, ela lembra que, geralmente, a iniciativa parte daquele que está questionando a situação. “Toda relação é uma construção, sem exceção. Familiar ou empresarial. E essa construção é importante e deve acontecer onde nós estivermos. Muitas vezes o que não é resolvido em uma geração, passa para a seguinte, e com mais força. É preciso romper essas mensagens negativas que, quando se vê, não começaram ali”, aconselha.

Problemas oriundos do conflito de gerações


- Os fundadores olham para seus filhos como “herdeiros naturais” que “lhe devem” obediência.

- Os fundadores colocam os jovens dentro da empresa sem planejamento e diálogo com o restante da família; sem funções específicas e delimitadas; sem responsabilidades que deveriam ser cobradas; sem planos e metas de crescimento pessoal e financeiro; tudo isso pode gerar um grande sentimento de frustração.

- Os fundadores exigem dos filhos posições para os quais estes se sentem inseguros para corresponder.

- A existência de segredos de família e a tensão gerada por eles são levadas para a empresa.

- Muitas empresas ainda tem marcas geracionais profundas, onde os mitos familiares se confundem. Nestes casos, o fundador ainda surge como a única verdade.

- Desafios empresariais se misturam aos problemas familiares: entre pais, filhos, irmãos.

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