COMO PRESERVAR O PATRIMÔNIO FAMILIAR

Atualizado: 5 de Jun de 2019

por Renata Bernhoeft e Renato Bernhoeft

Quando uma família empresária toma a decisão de implantar parâmetros de mercado, e se aproximar de um modelo de gestão arrojado e transparente, muitas ferramentas se apresentam, com grande valor agregado. Proteção patrimonial, planejamento estratégico, instalação da governança corporativa são algumas das ações necessárias. A questão principal é que nenhuma delas ataca verdadeiramente as causas que provocam os conflitos nas famílias empresárias – na sua maioria, de origem cultural, relacional e emocional. Com base em pesquisa da höft consultoria, nos seus 44 anos de atuação com famílias empresárias no Brasil e em outros países da América Latina, o índice aponta 70% de destruição do patrimônio familiar em processos de transição da primeira para a segunda geração. O exame mais aprofundado das causas apresenta alguns pontos que merecem destaque em nossa realidade, bem como uma análise mais aprofundada, em cada caso:

1. distanciamento familiar: a maioria dos nossos empreendedores tem uma origem simples – muitos foram imigrantes que fugiram de situações extremamente adversas – e com forte dedicação ao trabalho. Preocupados em construir algo, superar suas origens e deixar um patrimônio aos seus descendentes, tornaram-se pais ausentes, patriarcais e muito dogmáticos nas suas relações familiares. Muitos, inclusive, se esforçaram no sentido de “proporcionar aos filhos – do ponto de vista estritamente material – o que eles próprios não tiveram em sua infância ou adolescência”. O risco surge quando os aspectos emocionais negativos vão sendo transferidos para as relações societárias e profissionais.

2. herança sem legado: a conduta de acumulação não está necessariamente acompanhada de um preparo dos herdeiros para o gerenciamento do patrimônio que irão receber. A transferência de uma herança, sem o devido legado, termina provocando baixa identificação emocional com o que é herdado. Entenda-se por legado tudo aquilo que faz parte da construção do patrimônio na perspectiva histórica, dos valores e sacrifícios que foram necessários. A maioria dos patriarcas preocupa-se em buscar soluções estruturadas, tanto do ponto de vista legal e tributário, para a transferência dos recursos. Mas não se permite tempo, paciência e afeto na transmissão dos significados que impregnam aquilo que foi materialmente acumulado.

3. convivência de gerações: a relação do criador – empreendedor – com sua criatura – a empresa ou patrimônio – é de um caráter tão visceral, que ele não imagina a criatura sem ele. E nessa condição não consegue desprender-se da criatura, o que dificulta a inserção de seus descendentes no processo de sucessão e continuidade. O desafio está em criar um ambiente de convivência e diálogo entre as gerações adultas, num novo papel.

4. relações de dependência: muitas estruturas familiares proporcionaram, ao longo do tempo, uma conduta de dependência financeira do patrimônio comum. Considerando que, no médio e longo prazos, os padrões de vida dos novos núcleos familiares, inevitavelmente, terão diferenças, a não aceitação de lidar com as desigualdades pode criar uma postura de passividade na busca de soluções alternativas. Amplie-se este quadro de complexidade quando a maioria também olha a empresa da família como sua única alternativa de realização profissional.

5. repetição do modelo: em muitos casos, surge ainda a tentativa de procurar repetir nas novas gerações o modelo que norteou a primeira geração. Basear-se num modelo individual de liderança, quando ao longo do tempo necessitaremos de um modelo coletivo. Poucas famílias compreendem a necessidade de, a partir da segunda geração, se prepararem para o papel de sócios de um grupo de pessoas em que não houve a liberdade da escolha. Portanto, apesar da irmandade ou relação de primos, encararem-se como sócios é um fato novo que exige preparo, humildade e muita confiança mútua. O grande desafio para a maioria das famílias empresárias não está no desconhecimento de muitas destas questões. Mas, sim, na resistência em dialogar sobre estes temas. E planejar seu futuro para preservar o patrimônio, desafiando a profecia: “pai rico, filho nobre, neto pobre...”

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