A FORÇA DA HISTÓRIA

O sucesso da família empresária Nishimura, controladora do Grupo Jacto, uma das maiores empresas de equipamentos agrícolas da América Latina, se deve em grande parte à história e os valores de seu fundador

Quando a Jacto foi eleita, em 2014, a melhor empresa de agronegócio do País e também a melhor de bens de capital pelo ranking Maiores e Melhores da Exame, não foi exatamente uma surpresa para os que conheciam a sólida trajetória da família que está por detrás desta empresa. Em 2010 os Nishimura receberam o Prêmio Família Empresária, um reconhecimento merecido pelo trabalho de continuidade iniciado em 1994, e sua dedicação aos fundamentos de uma construção familiar e societária, que resultam em tanto sucesso empresarial. Passados mais de 70 anos de sua fundação, em 1948, o crescimento da companhia se confunde com o do agronegócio do Brasil. Mais que isso, seus valores permanecem sendo praticados, e são os mesmos implantados por seu fundador Shunji Nishimura.


Esses valores não se mantêm, sem esforço. Já na quarta geração, a família Nishimura ao longo de sua trajetória transformou o registro da história da empresa, de seu fundador e da família, em um componente importante para a união e a preservação de seu legado. Alessandra Nishimura, sócia da terceira geração e membro do Conselho de Administração da companhia, lembra que toda família tem uma história e esta deve ser registrada.


“Especialmente se for uma família empresária, já que o registro ajuda a marcar datas importantes e fatos marcantes, tornando mais fácil que essa história seja passada a gerações futuras”, diz, com a autoridade de quem, durante seis anos, entre 2009 e 2015, foi a coordenadora de novas gerações da família Nishimura. Além de perpetuar a história, os registros ajudam também a unificá-la, trazem exemplos vivos da prática de valores que possibilitam divulgá-los tanto no âmbito da família, quanto no da empresa.

“É importante que a história seja a mesma para todos. Em uma família que começa a ficar muito grande, surgem versões diferentes e, em uma família empresária, isso pode causar desconforto, atrapalhando a empresa”, explica. Por outro lado, se todos conhecem e compartilham a mesma história, o resultado é uma família ainda mais unida. Alessandra ressalta ainda que, no caso da família Nishimura, falar da história é importante, porque permite a todos relembrar os “humildes começos” da família, sempre valorizando as raízes e mantendo a conexão com os valores de esforço e dedicação, características que esta família deseja manter e preservar para o futuro.


REGISTROS Para que isso aconteça, já há alguns anos a família vem realizando registros em diferentes formatos. Quando a Jacto fez 50 anos, decidiu-se escrever um livro contando a história da companhia que era, na verdade, a história de Shunji. Mais que a história, a pesquisa realizada para a produção do livro reuniu também documentos e imagens que marcaram a trajetória do fundador da empresa. Dez anos depois, quando a companhia completou 60 anos, a família idealizou e a cineasta Tizuka Yamazaki realizou um documentário contando a história de Shunji.


Além dos registros em livro e filme, a terceira geração dos Nishimura teve algumas oportunidades de ouvir a história da família, e da empresa, do próprio avô. Alessandra lembra que antes de falecer, em 2010, Shunji realizou duas reuniões com os netos, onde pôde contar sua história e todos os desafios enfrentados para criar a Jacto.


“Meu avô ficou à frente da empresa até o final dos anos 70. Dali para frente, a gestão passou para os membros da segunda geração”, diz. A partir daí os filhos de Shunji passaram a construir sua própria história, que alguns anos depois também precisou ser registrada e contada aos membros da terceira geração. Aqui, como já se tratavam de cinco protagonistas, escolheu-se um método não convencional.


“Tivemos várias crises na empresa e cada um tinha sua versão da história”, lembra Alessandra. Para unificar a história, foi proposto à família o desafio de unificar a história, debatendo os fatos marcantes. O exercício teve início com um enorme papel pardo preso à parede, representando uma linha do tempo. Ali, cada um foi convidado a escrever o que achava relevante na história da empresa e da família. Depois disso, cada uma das esposas foi convidada a fazer o mesmo.


O método serviu para que todos os membros da segunda geração, sócios e suas esposas, conhecessem as versões uns dos outros, aparassem arestas e apresentassem uma única visão da história aos membros da terceira geração durante um Encontro de Família. Esta atividade demandou disposição de todos para acolher as distintas visões, e foi um emocionante reencontro de alguns dos familiares com questões que estavam represadas há anos. Além disso possibilitou que os membros de cada núcleo ouvissem as histórias além dos relatos de seus pais, acolhendo as visões de seus tios e tias e compreendendo também as distintas posturas ao longo do processo. Comunicar a história aproxima as gerações, e traduz em vínculo afetivo alguns fatos que podem ser vistos apenas como conquistas empresariais, os relatos passam a ter um novo significado.


Além de contada e registrada, a história também pode ser vista no Museu Shunji Nishimura, mantido na fundação que leva o nome do fundador da Jacto. Ali está reunida uma série de objetos guardados por ele, relacionados à empresa e à família. Há três anos a família começou a organizar o acervo, que é passagem obrigatória para todos que visitam a empresa.


“A maioria dos membros da quarta geração não conheceu meu avô, mas como estudam na escola fundada por ele, aprendem ali sua história”, conta Alessandra. Além disso, a casa em que Shunji nasceu no Japão continua na família - uma sobrinha dele vive lá - e é ponto de visita de todos os membros que visitam aquele país. “No telhado, por exemplo, tem o brasão da família. Há o brasão espalhado por todos os cantos da casa. É importante conhecer nossa raiz, lá, e todo o trajeto dele, até se estabelecer aqui”, afirma.


Para Alessandra, cada pedaço da história da família deve ser preservado, não apenas para manter viva a memória do avô, mas para que ela seja cultivada pelas próximas gerações, fazendo com que a família e a empresa cheguem aos 100 anos. E para isso o trabalho não para. Alessandra revela que a família está retomando a ideia de registrar em livro a história da segunda geração como forma de contá-la para as próximas.


Isso vale também para os funcionários. Cada novo funcionário, antes de começar a trabalhar efetivamente, passa por uma semana de imersão no grupo de empresas e sua história. “Eles passam pelo museu e assistem ao vídeo com a história do meu avô. É uma forma de garantir que os valores dele se espalhem pela própria empresa”, diz.


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